Um leitor afoito pode estar balançando a cabeça, contrariando a explicação que nem ao menos começou, para dizer como a fotografia deve ser algo espontâneo. Ou pode ainda argumentar que a técnica e a metodologia podem aprisionar a criatividade. Nada mais romântico. A metodologia estabelece as regras para que a criatividade seja produtiva, gerando resultados que atendam a necessidade do próprio criador. Lembro de um texto lido durante uma palestra, no qual o professor comenta que a criatividade sem limites é como uma rolha flutuando no mar, no qual as enormes forças envolvidas se anulam. A rolha é algo pequeno e leve perto do mar que parece quase infinito, entretanto, todo movimento das ondas é incapaz de mover um objeto tão insignificante na direção desejada (a suposta rolha só se movimenta graças às correntes marítimas).
O público pode se dar ao luxo de achar que uma foto é boa sem saber o motivo, mas não o profissional da comunicação. Este deve ter plena consciência do efeito que deseja causar no espectador, de qual imagem pode conseguir este efeito, e de como obter esta imagem com máxima qualidade. Ou seja: objetivo, olhar e técnica.
(O que vem a seguir não é um questionário que deve ser respondido por extenso, apenas tópicos que os profissionais devem levar em consideração antes de cada criação. Deve ser algo natural, inerente a um processo eficaz de um profissional maduro.)
Por “objetivo” entendemos:
Qual é a proposta? Existe um tema? Como vamos abordá-lo: de maneira positiva, negativa, direta, indireta?
Para qual mercado se destina? É uma campanha publicitária, fotojornalismo investigativo, cobertura de evento, exposição de arte, álbum de família, proposta acadêmica?
Como esta foto será apresentada: impressa ou no monitor? A foto será apresentada isolada ou em conjunto com outras imagens, ou ainda, fará parte da diagramação de alguma peça? Se fizer parte de uma diagramação, qual o papel dela na peça final?
A quem a foto se destina? Quem é o público-alvo, qual seu repertório cultural, seus gostos e expectativas?
Para o profissional de comunicação, desconhecer estes detalhes antes de começar a criação é como, para um jogador de futebol, de olhos vendados chutar a bola do meio de campo ao gol, sem saber a direção correta. Acertar depende mais do acaso do que da sua habilidade.
Pelo “olhar do fotógrafo” entendemos a pré-visualização da imagem: sua criação quando se trata de uma imagem produzida, ou o recorte proposto pelo fotógrafo em uma cena que está diante dos olhos de todos. Este olhar vai imaginar ou encontrar uma boa imagem, mas seu conceito do que é bom depende muito do seu próprio repertório visual e entendimento das expectativas do seu público-alvo, ou seja, da sua maturidade profissional. O caminho para adquirir esta maturidade é a análise de imagens, estudos de casos e do trabalho de grandes fotógrafos (cada qual em sua área).
Já “conhecimento técnico” significa saber atingir o resultado imaginado ou a cena vista, da maneira que se deseja. Simples observação da luz da cena e operação correta dos equipamentos. Este é o tópico mais curto, mas o que demanda mais estudo, principalmente por ser o mais ignorado devido à visão romântica que muitos possuem do nosso mercado de trabalho.
Não há uma fórmula única e universal. Cada caso deve ser analisado levando em conta os fatores citados, e todos os elementos estão subordinados ao OBJETIVO da imagem, por uma simples regra: COERÊNCIA entre todas as etapas, em consonância com o objetivo final. Cada fotógrafo deve encontrar seu caminho através de muito trabalho e estudo. Escolher uma foto por critérios pessoais e não técnicos é um ato ingênuo, ineficiente e arrogante. Como dito em sala, dispam-se de qualquer orgulho e vaidade, estudem e pratiquem à exaustão. Não existem atalhos.
Daniel Oikawa Lopes
Professor Técnicas Fotográficas - Facinter
domingo, 12 de outubro de 2008
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