Editorial

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terça-feira, 31 de março de 2009

Conto: O furo

Álvaro era foca, louco por um furo.
Não pensem que me refiro a espetar uma pobre foca com um alfinete. “Foca” é um repórter iniciante. “O furo” é uma grande e inédita notícia, fresquinha.
Álvaro estava maluquinho por uma coisa grandiosa, um furo do tamanho de uma cratera. Uma exclusiva com o ET de Varginha. Achar Jimmy Hoffa – e vivo, ainda por cima. Cobrir uma ilha com mutantes. Elvis refugiado num asilo. Carla Perez discutindo física quântica. Algo inacreditável.
Conseguiu quando menos esperava. O inexperiente Álvaro havia decidido passar o fim de semana no campo, longe da cidade, espairecer um pouco a cabeça.
Quando estava passeando por uma colina, Álvaro se deparou com ninguém menos do que Deus.
É, Deus. Você ouviu. Deus se assustou:
- O que você está fazendo aqui, na minha colina secreta?
Álvaro estava boquiaberto. Então Deus era assim? Se amaldiçoou por não estar com sua máquina fotográfica.
- E-eu – gaguejou Álvaro. - ...Estou atrás de uma grande...
- Reportagem. Eu sei. Eu sei de tudo.
Num ímpeto de extrema audácia, Álvaro soltou a pérola:
- Posso te entrevistar?
Entrevistar Deus. Era só o que faltava. Mas entendam, Álvaro era um pobre foca e ninguém teria feito diferente.
Deus franziu a sobrancelha e perguntou:
- Em off?
Álvaro não conseguiu mentir para Deus. Nem poderia. Confessou que sua intenção era ficar famoso com a entrevista. Uma exclusiva com Deus não era pra qualquer um.
Cativado pela sinceridade de Álvaro, Deus concedeu a entrevista. Conversaram sobre o sentido (ou falta de) da vida, Deus revelou seu time de futebol preferido, o que realmente pensava das religiões e onde estava com a cabeça quando criou os portugueses.
- Não se pode acertar todas. – disse Deus humildemente, dando de ombros.
Terminada a entrevista, Deus voltou para seus afazeres e Álvaro dirigiu como um louco em direção a cidade. Tinha tudo gravado numa fita de áudio, a própria voz de Deus, que aliás, lembrava um pouco a do Lombardi.
Mas quando Álvaro foi testar a fita, ela enrolou todinha e ficou irreparável.
Desesperado e duvidando da própria sanidade, Álvaro decidiu escrever a matéria mesmo assim. Tinha ótima memória e relatou a entrevista que tivera com o Todo Poderoso.
Virou motivo de piada. Foi despedido. Perdeu o respeito de todos. Teve que ser internado num hospício. Passava horas por dia berrando:
- É verdade! É verdade!
Um dos poucos amigos que não o abandonaram foi lhe visitar certo dia. Álvaro, deprimido, falou sem forças:
- A fita estragou. Mas é verdade.
O amigo, mesmo sem acreditar, deu um meio sorriso e disse com simpatia:
- Que furo, hein?
E Álvaro teve que concordar:
- Que furo.
Diego Gianni
Estudante de Com. Social - Jornalismo