Manter a luz é preciso
Além de romancista de mão-cheia, consagrado internacionalmente ou contador de histórias, como preferia designar-se, “fascinado pelas pessoas e pelos problemas humanos”, lido e aclamado em vários idiomas, Erico Veríssimo era um homem de posições definidas e corajosas (sem que coragem, no caso, se confundisse com valentia, tão proprias dos pampas riograndenses), consciente e participante, cujo a voz anotou o prof. Sergio Gonzaga, “independente dos livros que escrevia, ecoava por toda a Nação”. E, numa época que ainda exixtia esquerda e direita, ousou atacar as duas. Em defesa da democracia e da liberdade de expressão. Exatamente quando essas duas instituições eram palavras malditas, abominadas pelo poder dominante e banidas do vocabulário brasileiro os anos de chumbo da ditadura militar. Contava Erico Verríssimo que esse negócio de liberdade fazia-lhe lembrar sempre de um episódio de sua infância, na terra natal: “Quando menino, fui chamado a segurar uma lâmpada, enquanto um soldado operava um pobre-diabo que tinha sido ‘carneado’ pela policia municipal. Ele estava horrivelmente ferido, apareciam-lhe os intestinos e tinha o rosto todo retalhado. Eu sentia medo e náusea, más não larguei a lâmpada. Ach que a nossa tarefa, como escritor, é esta: com medo ou não, segurar a lâmpada acesa para deixar que apareçam as injustiças do mundo”. E acentuava: “Se não tivermos uma lâmpada elétrica, acendamos o nosso toco de vela ou, no último caso, risquemos fósforos repentidamente, como um sinal de que não desertamos de nosso posto”.
Esse era Erico. Assim também deveria ser os nossos jornalistas. Com náuseas ou com medo, deveriam sustentar acesa a luz que desnuda aos olhos da população os vendilhões da pátria, os falsos defensores do povo e a caterva que esta sempre pronta para assumir o poder, custe o que custar.
Eu, pelo menos, modestamente, tenho procurado fazer isso, gastando meus palitos de fósforos como me é possível. Sem medo, mas com muita náusea, confesso. Por isso, sempre tive Erico Veríssimo como um exemplo. De competência profissional, de dignidade, de inttegridade e de coragem pessoal, além, sobretudo, de coerência: um destemido soldado na defesa dos direitos humanos e da liberdade de pensamentos e da ação, com acentuado sentimento de justiça e repugnância pela violência e por qualquer tipo de tirania ou totalitarismo.
Ele, aliás, tinha apenas um receio confessado: de perder a capacidade de indignação e cair na resignada aceitação.
“Não quero ser indiferente”, frisava, acrescentando: “Dentro de mim ouço sempre o meu grito de indignação. Quando choro pelo outro, sei que estou chorando por mim. Quando tenho receio pelo outro, tenho-o também por mim. Não sou santo, sou apenas um homem”.
Sim, apenas um homem, mas um homem que era fascinado pela capacidade humana de sobreviver e para quem o grande herói deste País sempre foi e sempre será o povo, ser comum, que, se contina vivo, é de teimoso. Até porque, como dizia Erico, “no Brasil, infelizmente, o governo não é exercido por estadistas, mas por homens de negócio”. Isto foi dito há algum tempo, mas, como se sabe, as coisas não mudaram muito desde então.
Esse era Erico. Assim também deveria ser os nossos jornalistas. Com náuseas ou com medo, deveriam sustentar acesa a luz que desnuda aos olhos da população os vendilhões da pátria, os falsos defensores do povo e a caterva que esta sempre pronta para assumir o poder, custe o que custar.
Eu, pelo menos, modestamente, tenho procurado fazer isso, gastando meus palitos de fósforos como me é possível. Sem medo, mas com muita náusea, confesso. Por isso, sempre tive Erico Veríssimo como um exemplo. De competência profissional, de dignidade, de inttegridade e de coragem pessoal, além, sobretudo, de coerência: um destemido soldado na defesa dos direitos humanos e da liberdade de pensamentos e da ação, com acentuado sentimento de justiça e repugnância pela violência e por qualquer tipo de tirania ou totalitarismo.
Ele, aliás, tinha apenas um receio confessado: de perder a capacidade de indignação e cair na resignada aceitação.
“Não quero ser indiferente”, frisava, acrescentando: “Dentro de mim ouço sempre o meu grito de indignação. Quando choro pelo outro, sei que estou chorando por mim. Quando tenho receio pelo outro, tenho-o também por mim. Não sou santo, sou apenas um homem”.
Sim, apenas um homem, mas um homem que era fascinado pela capacidade humana de sobreviver e para quem o grande herói deste País sempre foi e sempre será o povo, ser comum, que, se contina vivo, é de teimoso. Até porque, como dizia Erico, “no Brasil, infelizmente, o governo não é exercido por estadistas, mas por homens de negócio”. Isto foi dito há algum tempo, mas, como se sabe, as coisas não mudaram muito desde então.
Artigo de Célio Heitor Guimarães,
publicado no jornal O Estado do Paraná, no domingo, dia 04 de janeiro de 2009.